E1 Núcleo Dinâmico
Tópico
O núcleo dinâmico da atmosfera é o conjunto de equações de movimento que governam o comportamento do fluido atmosférico em sua rotação com a Terra. Essas equações, chamadas de equações primitivas, derivam das equações gerais de Navier-Stokes, que descrevem qualquer fluido, mas são simplificadas com duas aproximações específicas da atmosfera: a aproximação hidrostática, segundo a qual a pressão em qualquer ponto é igual ao peso do ar acima dele, e uma aproximação que simplifica a representação da curvatura da Terra nas grandes escalas horizontais em que o núcleo dinâmico da atmosfera opera. Com essas duas simplificações, as equações primitivas descrevem como o vento horizontal, a temperatura e a umidade evoluem ao longo do tempo, expressas em coordenadas que utilizam a pressão em vez da altitude para localizar cada nível da atmosfera.
Dentro dessas equações fundamentais, a força de Coriolis é o que distingue a atmosfera de qualquer outro fluido: trata-se de uma força que depende tanto da velocidade do vento quanto da velocidade de rotação da Terra, e que desvia qualquer movimento para a direita no Hemisfério Norte e para a esquerda no Hemisfério Sul. Essa deflexão sistemática faz com que o ar, em vez de fluir em linha reta das áreas de alta pressão para as de baixa pressão, gire em torno delas, e é assim que a força de Coriolis se torna responsável pela formação de ciclones e anticiclones.
Quando o gradiente de pressão que empurra o ar da alta para a baixa pressão é exatamente equilibrado pela força de Coriolis que o deflete, o resultado é o vento geostrófico, um vento que não flui mais em direção à baixa pressão, mas sim paralelamente às linhas de pressão constante. Esse equilíbrio entre o gradiente de pressão e a força de Coriolis é uma boa aproximação do vento real nas escalas de milhares de quilômetros que governam o núcleo dinâmico da atmosfera, embora deixe de sê-lo em escalas muito menores.
Existe, no entanto, uma grandeza que se conserva ainda melhor do que o próprio vento geostrófico: a vorticidade potencial de Ertel, que permanece constante enquanto o ar se move sem trocar calor com o ambiente e sem atrito para desacelerá-lo. Precisamente por ser conservada nessas condições, a vorticidade potencial de Ertel é a variável dinâmica mais fundamental para diagnosticar e prever o fluxo atmosférico em grande escala: basta acompanhar como essa quantidade conservada se move para reconstruir grande parte de como o resto da atmosfera ao seu redor se move.
A vorticidade potencial de Ertel descreve principalmente o movimento horizontal da atmosfera, mas esse mesmo movimento horizontal também determina o movimento vertical: quando o vento horizontal converge para um único ponto na superfície, o ar que se acumula ali não tem para onde ir a não ser para cima, e esse ponto sofre ascensão. Quando os ventos horizontais divergem, afastando-se de um único ponto, o ar que falta é reposto por cima, e esse ponto sofre subsidência. Essa divergência dos ventos horizontais é o que produz o movimento vertical, que nessas coordenadas de pressão é chamado de ômega.
A equação que relaciona esse movimento vertical, ômega, ao restante do fluxo geostrófico é a equação ômega do modelo quase-geostrófico: de acordo com essa equação, o movimento vertical depende de como o vento geostrófico transporta vorticidade de um lugar para outro e como também transporta temperatura. Sempre que esse transporte de vorticidade e temperatura se combinam de uma determinada maneira, a atmosfera responde gerando a elevação ou subsidência necessária para manter o equilíbrio geostrófico. Essa equação ômega é precisamente a base sobre a qual os sistemas meteorológicos são diagnosticados: os próprios ciclones e anticiclones que a força de Coriolis ajuda a formar acabam sendo explicados, em última análise, por como o núcleo dinâmico da atmosfera combina a força de Coriolis, o vento geostrófico, a vorticidade potencial de Ertel e o movimento vertical em uma única descrição coerente do fluido atmosférico em rotação.
ID:2126
